CAPÍTULO 7
A ligação
Depois da sobremesa, Rafael pôs uma música no aparelho de som. Uma sequência curta de notas de piano se repetia com pequenas mudanças; um instrumento de cordas entrava devagar, sustentando o fundo. Não havia voz. Clara ouvia enquanto levava a primeira taça à cozinha.
Ele segurou seus dedos antes que ela pegasse a segunda.
“Deixa um pouco.”
“Você está adiando a louça?”
“Estou tentando ser mais interessante.”
Puxou-a com cuidado para o espaço entre o sofá e a estante. Clara olhou para a mão estendida, depois para o rosto dele. A vontade de rir vinha junto de outra coisa, mais quente e menos fácil de mostrar. Aceitou.
Rafael colocou a mão em suas costas, acima da cintura. Clara apoiou a esquerda em seu ombro. Deram dois passos e bateram de leve um pé no outro.
“Você vai para a esquerda ou para a direita?”, ela perguntou.
“Eu estava esperando descobrir sua preferência.”
“Isso parece um problema estrutural.”
Ele moveu o braço, propondo que girassem. Clara passou perto demais da estante e precisou encolher o cotovelo.
“Dois para lá. Sem inventar”, disse.
Rafael assentiu com exagerada solenidade. Deram dois passos para um lado, dois para o outro. Na segunda volta, ele acertou. Clara sentiu o riso se desfazer aos poucos; ficou apenas a mão dele nas costas e o tecido da camiseta sob seus dedos.
A melodia começava de novo, mas mais cheia. Ela aproximou o rosto de seu pescoço e respirou, sem ter de fazer uma frase a respeito. Rafael encostou a boca em sua têmpora. O apartamento parecia menor, reduzido àquele espaço em que conseguiam mover-se sem esbarrar em nada.
O telefone vibrou na bancada.
Ele olhou por cima do ombro. Clara esperou que continuasse dançando. O aparelho parou, começou de novo quase imediatamente, e Rafael afrouxou a mão.
“É meu pai. Um minuto?”
Trecho de O Que o Amor Não Apagou, de Thiago Pitangueira.
